11 de novembro de 2008 às 12:31

[Pergunte ao Mestre] A contra-utopia da obrigatoriedade

Por algumas décadas de revoluções que foram desde a igualdadde racial, até o liberalismo sexual, passando pela reformulação dos conceitos democráticos, a sociedade criou um grande mote entre as duas últimas décadas: “Você tem que fazer o que gosta”. Isso serviu durante muito tempo não apenas para os ricos, mas durante esse periódo serviu a todas as classes sociais, reverenciando que quem faz o que gosta pode se sobressair e ter um estilo de vida melhor. Essa “utopia” de fazer APENAS o que se gosta, durou bastante tempo, mas seus resultados práticos não foram dos mais satisfatórios.

Em grande verdade, se realizassemos apenas o que gostamos, satisfazendo nosso “Id” eternamente sedento por prazer, não construiriamos uma sociedade muito produtiva. Por conta dessa demanda de produtividade e eficiência, foi criada uma mentira para encobrir certas coisas de nosso campo de visão.

Liliana (ojos)

Fecha os olhos para não seres cego.

Vergílio Ferreira

Hoje em dia, se tem que fazer o que se deve fazer. As “obrigações” comandam nossas vidas novamente, como em tempos feudais, que servos e escravos TEM que fazer suas respectivas tarefas. Você tem que estudar, ir para uma boa faculdade, se formar, especializar, arranjar um emprego estável, casar, ter filhos, educá-los da melhor maneira possível, fazerm com que eles também se formem e tenham empregos estáveis e manter suas finanças em um balanço nítido entre ganhos e despesas. Então você se pergunta: formar em que? trabalhar em que? casarm com quem? E a resposta para todas essas perguntas residem cruel e friamente na Contra-utopia da Obrigatoriedade.

The main manager

Não se pode matar a ideia a tiros de canhão nem amarrá-la.

Louise Michel

Na verdade a resposta para todas essas perguntas é “tanto faz”. Nessa contra-utopia, não interessa sua vontade, apenas o que você deve ler, comer, beber, consumir, fazer, produzir para ter o que tem que ter e não para  realizar seus desejos e sua vontade criativa. “Fazer o que gosta” foi substituído por “Faça o que deve, custe o que custar”. E o preço tem sido alto: Uma sociedade psicologicamente doente. Filhos alienados em uma “corrida dos ratos” sem fim. Uma feminilidade somatizada pelo peso das diversas tarefas que deve executar. Homens afogados em mares de ódio que é reflexo de uma geração cada vez mais frustrada. Não existe vazão para seus sonhos. Sua vontade não conta, apenas o conteúdo da sua carteira e sua capacidade de sobrevivência.

You're so very close, but I still can't touch you

Todos os opressores… atribuem a frustração dos seus desejos à falta de rigor suficiente. Por isso eles redobram os esforços da sua impotente crueldade.

Edmund Burke

Talvez a geração “faça o que gosta” pode não ter sido a mais produtiva, mas com certeza foi mais saudável. Talvez tenhamos que passar por uma crise mundial, um efeito estufa ampliado, um surto de violência endemico via terrorismo e várias outras catástrofes para enxergar que o melhor é o meio termo. Temos que reaprender que nosso mundo deve girar entre o que temos que fazer para alcançar o que queremos fazer. Obrigações, disciplina e responsabilidades são inevitáveis, mas devem servir apenas a seu único e verdadeiro propósito, não a um estilo de sobrevivência desmedida e sem finalidade.

Não gosto do trabalho, ninguém gosta; mas gosto do que é no trabalho a ocasião de se descobrir a si próprio.

Joseph Conrad

Um amigo me questionou recentemente se eu seria capaz de achar esse meio termo. De ignorar a opressão da obrigatoriedade e realizar o que eu me propunha a realizar. Nesse sentido eu só pude lhe dar uma resposta: Talvez eu esteja errado. Talvez eu me dê mal tentando realizar meus sonhos. Só que com certeza prefiro isso a desistir dos meus ideais e ser só mais um na fila de entrevista para emprego de carteira assinada. Não sou o jovem idealista de 18 anos que fui um dia, mas também me recuso a me tornar agora um velho desiludido de 80 anos. Não ceda a Obrigatoriedade. Ela não é seu sonho e com certeza não vai te fazer mais feliz.

Pergunte ao Mestre