Ensaio Sobre a Cegueira [Review]
Blindness

Somos todos cegos que não querem ver…
Inacreditável é como resumiria esse filme é apenas uma palavra. O filme de Fernando Meirelles baseado na obra de José Saramago (que agora tem um blog, esse mundo tá perdido mesmo) é uma jornada pelos cantos mais belos e principalmente os mais obscuros do ser humano. Com um elenco de calibre incomparável, um diretor espetacular e baseado numa obra de sucesso, não tinha como dar errado. Concordam?
Em Ensaio Sobre a Cegueira, uma cidade é assolada por uma epidemia de cegueira. Aqueles afligidos por ela são isolados em quarentena em uma instituição mental abandonada, onde rapidamente se forma uma “sociedade dos cegos” que não demora muito a ruir. Entre os personagens principais está uma mulher que não foi afetada pela epidemia, mas decide seguir o marido em sua quarentena. Ela se torna testemunha ocular enquanto essa nova ordem começa a ruir, os mais fortes dominam os mais fracos de forma injusta e cruel ao mesmo tempo que se une a 7 estranhos que vão se tornando amigos e, eventualmente, sua família.

Por onde começar? Fernando Meirelles se superou de todo tipo de forma possível. Apesar do filme não ter sido sucesso em sua estréia no festival de Cannes, com certeza será um hit ao redor do mundo, principalmente fora da ótica americana. Juliane Moore está em um de seus melhores papéis, carregando ao mesmo tempo o fardo de ser os olhos de todos que estão a sua volta, como sendo apenas mais uma vítima da crueldade humana, como todos alí. Mark Rufallo fez uma atuação dentro das suas capacidades como o médico e marido da pesonagem de Moore. Nunca achei ele um ator excepcional, mas ele compensa isso com bastante carisma. Alice Braga está no filme, mais linda do que nunca, mesmo tentando parecer desgrenhada - e uma nota para os onanistas, ela paga peitinho em diversas ocasiões =D - enquanto retrata uma prostituta que parece encontrar propósito maior do que apenas transar por dinheiro. Um show fica a parte de Danny Glover que não só representa como são tratados os idosos na nossa sociedade, mas também é de certa forma o narrador da história e joga as reflexões do filme na locução. Atuação fantástica! Gael Garcia Bernal se supera como um cara no mínimo nojento, mas que no final das contas demonstra ser o mais perdido dos perdidos. O casal de japoneses é interpretado por atores meio desconhecidos no mainstream e a criança também tenho a sensação que já vi em algum lugar, mas eles fazem muito bem sua parte.

A direção é primorosa. Meirelles conseguiu capturar de forma impressionante a sensação da cegueira, não apenas a física, como a social. Além das diferentes sacadas em relação a percepção de um “recém-cego” em relação ao mundo. Coisas que aparecem e desaparecem por não notarmos que estão lá, como a trilha sonora é crucial nesses momentos, até mesmo a cegueira “branca” e não “preta” como de costume, mostrando de forma poética que nossa cegueira é mais por excesso de pretensão no conhecimento do que por falta de luz. Detalhe, o filme foi feito em São Paulo. Dá uma visão de desolação muito maior de “metrópole em decadência” do que se fosse filmado em um lugar como Paris ou Manhattan. (Antes que alguém me critique, é só pra afirmar que São Paulo tem muito mais aquele look “cara suja” do que outras cidades de primeiro mundo, não acho ela necessariamente inferior em nenhum sentido)

Cada personagem mostra de certa forma uma parte da nossa sociedade. O negro, o velho, o estrangeiro, a criança, a marginalizada, a classe média, os líderes. Tudo muito bem retratado em uma mini-sociedade que é cega de nascença e mais cega ainda por circunstância. E caso alguém ache o fime excessivamente chocante, lembrem-se que tudo que acontece alí já foi parte vigente e corriqueira de nossa sociedade em pelo menos algum momento histórico. Se prestar bastante atenção, a história é tão sem precedentes que os personagens não tem nome. Nenhum deles. Quando chegam em algum lugar são definidos pela sua profissão, quando tem q se referenciar a alguém, se usa outra pessoa como referência. Ninguém tem nome. Assim como nessa curta reflexão, são tantas deixas durante o filme, que acredito que é difícil entender todas em uma única sessão de cinema.
De forma singular, acho que não consigo encontrar nenhum defeito significativo no filme como drama. A agonia e o desespero são uma constante, pois seja sob a visão dos cegos em certos momentos quanto na visão da única pessoa que enxerga, tudo parece perdido. Saramago e Meirelles estão para a crítica social como Zack Snyder e Frank Miller estão para os quadrinhos nas telonas. Perfeitos de todos os ângulos. Aqui do ZeroOitocentos lhes digo para largar o que estiverem fazendo e correr para o cinema mais próximo - como não falo desde Homem de Ferro - para conferir uma obra prima.
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![[Bloguevista] Andersson Quegi do Anderssauro](http://www.zerooitocentos.org/image/uploads/2008/12/jim-carrey_anderssauro.jpg)
Para quem deseja sair das ruas-curral, esta aí um filme que deixa o alerta: Estamos realmente todos cegos?
Queria ter lido o livro.
A idéia é por aí mesmo em relação a cegueira…
Não interpretou nenhuma mensagem a mais do filme??? Eu achei que ele trouxe abordagens sobre assuntos que dificilmente vi sendo abordados no cinema. E mesmo que não tenha sido revolucionário quanto a efeitos especiais (zero efeitos quase em relação ao acima citado), foi bem revolucionário em questão a adaptações literárias ao meu ver. Mas, não dá pra agradar todo mundo né?