[Mundo de Mandy] Fugir
v.i. Afastar-se, retirar-se, desviar-se apressadamente para escapar (a alguém, algum perigo, ou de algum lugar). / Retirar em debandada. / Sair furtivamente. (Sin.: abalar, abrir o arco, abrir o chambre, abrir o pé, azular, bater a linda plumagem, bater a asa [ou as asas], bater em retirada, botar o pé no mundo, cair no mundo, dar à canela, dar aos calcanhares, debandar, ensebar as canelas, esquipar, meter o arco, passar sebo nas canelas, raspar-se, zarpar e muitos outros, quase todos populares.) /
V.t. Evitar alguma coisa ou pessoa, por aversão ou temor. / Abandonar. / Esquivar-se. / Deixar de cumprir (a palavra, um compromisso).
Ok, começo esse texto com a definição do Aurélio online de fugir, e já vou dizendo que tem coisa ai que eu NUNCA tinha ouvido falar… o que diabos é: “dar às de vila-diogo” huahuahuahu ou a maravilhosa tradução já assimilada ao riquíssimo português “esquipar”. Sem contar outras geniais como “abrir o chambre”… eu não faço idéia do que seja um chambre. Mas enfim, comentários a parte eu gostaria hoje de falar de fugir. Muitas vezes nos últimos meses eu olhava pro teto do quarto e tudo que eu desejava,, tudo que eu conseguia desejar, era: “não existir”.
Esse tipo de sentimento medonho é pior que um desejo suicida, pois tira até o ato heróico/poético/melodramático de se jogar da janela ou cortar os pulsos tetricamente sangrando até a morte. Desejar não existir é pior porque é mórbido e até mesmo um tanto preguiçoso, porque te suprime ao nada.
Quem anda acompanhando o que eu escrevo já deve ter notado que eu não estou em um dos momentos mais felizes ou completos da minha vida, mas de forma geral as coisas vão bem. Passei para o segundo ano de medicina, passar em anatomia foi como passar no vestibular novamente, hoje saíram as últimas notas e tudo vai bem. E então eu, no meio da minha alegria anatômica me toquei que ia voltar pra São Paulo para lutar outras batalhas… E acabo querendo não existir de novo. Foi então que percebi um padrão em mim mesma, (eu tenho vários padrões, mas esse é bem humano e bastante comum) eu nunca quero estar onde estou… Eu fujo.
O tempo todo que estive em Botucatu, fazendo provas alucinantes, desejei não existir. Eu desejei voltar pra casa. Desejei estar em são Paulo com os meus amigos. E na hora que cheguei aqui percebi o quanto queria ter ficado lá, porque aqui eu senti que não queria existir e não tenho ainda força pra lutar outras tantas batalhas que deixei. Enfrentar os que eu deixei, os que me deixaram e toda a situação de abandono que constrói desagradável e repetidamente a minha história (Sim senhoras e senhores membros do júri, eu estou fazendo terapia hauhauauhahu)
A vida é assim e todo blábláblá, ninguém disse que ia ser fácil, e todo aquele discurso de “rapadura é doce, mas não é mole não”. Então eu fujo, finjo que não é comigo, desejo não existir, desejo estar em outro lugar. Se eu luto as minhas batalhas? Eu não sou covarde. Posso ser muita coisa na vida, mas covarde não… SEMPRE, sempre luto minhas batalhas, eu nunca tiro o corpo fora quando me comprometo. Eu estou fazendo medicina, eu passei em anatomia acima da média, eu passei em todas as outras matérias. Não importa o quanto doa. Eu não vim até aqui pra desistir agora. Eu sou teimosa e cabeçuda e tudo mais. E apesar da minha auto-estima lixo, acabo conseguindo uma coisa ou outra. Estou cansada de fugir, mas também já não tenho mais paciência pra enfrentar… Fazer o que então? Contar os dias para zarpar naquele navio que vai sair dia 27 e me levar para um ano novo. Fugir mais uma vez, fugir porque é o que um bichinho machucado faz… Ele foge, afasta-se, retira-se, escapa, debanda, abre o arco, abre o chambre (?), azula, bate asas, passa sebo nas canelas, raspa-se… no meu caso literalmente zarpa. Para “Evitar alguma coisa ou pessoa, por aversão ou temor. / Abandonar. / Esquivar-se. / Deixar de cumprir (a palavra, um compromisso).”
Mas o barco volta, ele aporta e eu sei disso, mas por 7 dias eu vou fugir do mundo e das minhas batalhas e vou esperançosa projetando um futuro que não existe, criando fabulas que um dia podem se transformar em realidade, ou não.
Normalmente não.
Mas agente sonha, porque sonhar é a forma mais poética de fugir. Então eu sonho, e cometo um erro, vivo no futuro e fujo do presente, não estabeleço a realidade, eu simplesmente durmo e espero o dia que eu vou entrar aqui pra contar que eu gastei a tecla “a” do meu lap top de tanto escrever sobre amor.
Encerro de novo essa coluna como encerrei a anterior, a vida é cíclica, ela se repete. Mas cabe muitas vezes a nós quebrar ciclos viciosos. Essa talvez seja a minha maior batalha… Só que só vou pensar nisso ano que vem, porque dia 27 eu vou “ às de vila-diogo” e só voltar 3 de janeiro.
Ano novo para velhas fugas… Na esperança de projetar um presente e não um futuro, para que meu desejo para esse ano que vai entrar seja a possibilidade de vencer esse vício, quebrar um ciclo e aprender a desejar estar onde eu estou.
PS:
Chambre
s.m. Roupão caseiro comprido para homem ou mulher. [ainda n faz sentido pra mim.... faz pra alguém?]











Adorei, Amanda….parece até mesmo que eu estava lendo meus próprios pensamentos!
Ai ai..
Pois é Mandy. O gostoso da ironia poética (redundância, para mim) que você vive e descreve a nossa, é que realmente você pode zarpar. E esses atos retóricos da vida, precisam ser aproveitados (preciso lembrar de aproveitar).
Nada a ver com ritos de passagem, mas sonhar mesmo e fazer do desaportar, o mesmo que o velório/enterro, o incendiar as fotos e cartas, o vudu de matar as coisas velhas.
Uma coisa pode estar certa, posso não ter a coragem de romper os ciclos como vc, mas me sinto inspirado nos seus textos e, aproveitando a fala da Michelle, ver meus pensamentos bem mais elaborados aqui.
Abrir o chambre é coisa do Machado de Assis. Acho que é tão significativo quanto “picar a mula”, que não sei se é só de Goiás.
E agora que perguntou, será por que alguém quer picar a mula, coitada? Hahaha (Já abrir o chambre é bem interessante, dependendo de quem vai fazer isso, se um exibicionista grotesco, se ou um deus/deusa… :-))
Olá!
Mandy, eu me identifiquei muito com seu texto, com certeza existem muitas pessoas com sentimentos parecidos com os seus e eu sou uma delas. A vontade de deixar de existir / fugir/ morrer parece algo muito natural pra mim, como você mesma disse, algo cíclico.
Não deixo de pensar que eu, você e todos que se sentem assim tem seus motivos e, com a mesma garra que você descreveu, vão lutar para querer estar onde estão. Nada é por acaso. Viver é lutar e sofrer. Mas também é um aprendizado tremendo e muitas conquistas partem daí. O que nós passamos provavelmente se chama auto-conhecimento.
Espero que você leia esse comentário, porque eu adoraria entrar em contato com você e te conhecer. Meu pai era médico. E talvez por isso eu ache que medicina é uma coisa tão admirável. Mas isso não vem ao caso… por mais que se superar como você seja algo admirável.
Galerê, a Mandy – como diz o texto – tá no cruzeiro, mas tenho certeza que ela responde quando voltar
E tomara que ela esteja mais forte do que nos e nem passe na frente de um celular.
Comer, dormir, beber e relaxar….vamos fugir, desse lugar, baby…nananana…. que vc me leve….