13 de março de 2010 às 17:47

Ilha do Medo [Crítica]

A tênue linha da sanidade de Scorcese.

Depois de longo hiato nas telas de cinema, a dupla dinâmica de Os Infiltrados volta a atacar. Um se desafiando ainda mais do que em Foi Apenas um Sonho, enquanto o outro tem um tipo diferente de desafio se aventurando pela mente humana. Um filme desprentecioso que joga tanto com sua claustrofobia quanto com sua necessidade de lutar contra seus próprios demônios. Fica no ar a pergunta: somos tão diferentes assim daqueles que chamamos de loucos?

O filme é uma adaptação do livro Paciente 67 de Dennis Lehane. Em Ilha do Medo, acompanhamos dois agentes federais em 1954 investigando o desaparecimento, de forma mais do que misteriosa ,de uma assassina internada no manicômio judicial de Shutter Island. Ao chegar no local, se deparam com uma série de mistérios, uma rede de intrigas e um furacão que os prende no local deixando sem outra alternativa a não ser buscar solução para esses mistérios.

shutterisland_05

A direção sempre genial de Martin Scorcese não decepciona novamente e ele consegue articular um filme que passeia entre o thriller policial e o terror psicológico. Como misturar dois gêneros tão distantes em conceituação e difíceis de se conciliar de forma a não cair no mesmo erro de franquias intermináveis e fúteis como Jogos Mortais IV, V, VI, etc? Somente Scorcese tem a resposta para isso, dessa vez abusando de tomadas panorâmicas, efeitos especiais e ótima escolha de elenco. Por falar nisso, o ponto mais forte do filme.

shutterisland_30

Leonardo Di Caprio volta a fazer parceria com Scorcese em grande estilo. Talvez em um dos seus top 5 trabalhos de toda sua carreira. Seu talento veio para ficar e de forma absoluta. Beirando a paranóia e o cinismo, o detevite Daniels te deixa com aquela sensação de que você espectador está ao mesmo tempo sendo enganado ou se enganando com a trama. Mark Ruffalo faz um ótimo parceiro. Outro ponto fortíssimo fica para Michelle Williams, que tem poucos papéis de destaque em Hollywood, mas os faz com maestria. Ben Kingsley não tem Oscar a toa, é um sucesso de público e crítica e sabe fazer você ao mesmo tempo simpatizar e desconfiar do mesmo. As rápidas participações de Max Von Sydow como pisquiatra sagaz e Ted Levine como diretor de carceragem são pérolas que poucos vão saber notar, mas simplesmente fantásticas atuações. A cereja do bolo, melhor de tudo e atuação premiável do filme é do sempre fodáximo ator Jack Earle Haley no papel de prisioneiro totalmente psicótico. É muito rápida, mas memorável mesmo assim, sem dispensar nunca sua maquiagem desfiguradora de sempre. Hollywood imagina que ele não deva mostrar a cara talvez.

shutterisland_12

A trama é ao mesmo tempo previsível e surpreendente. Talvez isso que seja irritante, pois desde os primeiros 5 minutos de filme e depois de assistir o trailer, você já tem uma boa noção do final, mas mesmo assim, nunca imagina o que deverá acontecer até o último minuto –  eu digo literalmente até os 47 minutos do segundo tempo – deixando você com aquela cara boba de surpresa e a eterna indagação de “será?”. O que interessa não é o desfecho, que por mais previsível ou diferente que pareça, não substitui a jornada. A verdade é que Scorcese brinca muito bem com a claustrofobia e os preconceitos em relação a saúde mental, ou a falta dela, retratada nos personagens. Com ótimo elenco, ótimo diretor e um bom livro de base, difícil é fazer m**da.

shutterisland_15

Ilha do Medo promete tocar tanto nas questões dos nossos preconceitos, da nossa sanidade, da nossa agonia de lugares isolados ou simplesmente no suspense clássico. Recomendadíssimo e altamente aclamado pela crítica, pelo menos a que eu leio. E se não fosse suficiente, outras estréias fodáximas essa semana. Um fim de semana recheado, então escolham por gênero.

Crítica . Destaque