15 de agosto de 2009 às 8:00

Confissões de uma Garota de Programa [Crítica]

Confissões de uma garota de programa

“A visão mais sutil sobre a coisa menos sutil do planeta.”

Um filme que deve ser digerido, visto com olhos cuidadosos e escolhido com bom gosto. Não, a sequência da frase não está errada, o filme corre exatamente como essa frase. Raramente faço críticas sobre filmes “cult” ou “indie”, mas esse especialmente tem dois bons motivos: Steven Soderbergh e Sasha Grey.

Confissões de Uma Garota de Programa é um drama ambientado na época pouco antes das eleições americanas que levaram Barack Obama ao poder nos Estados Unidos. Conta a história de uma garota de programa de luxo em Manhattan que oferece a “Girlfriend Experience”, ou seja, simula ser uma namorada para um determinado encontro. Essa garota lida em diferentes momentos com a crise do relacionamento com seu namorado, um repórter querendo saber como é sua vida, clientes dos mais variados tipos e uma série de fatos do seu inusitado cotidiano.

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Antes de mais nada, devo dizer que essa foi uma das mais gratas surpresas do ano em relação a direção. Muito se esperava de Soderbergh, pouco do filme, mas ambos se superaram em muito. O filme é todo em tempo psicológico e as passagens são extremamente sutis. Sutileza é o que melhor descreve a direção que nos leva a crer que estamos presenciando um documentário e não uma ficção. Ângulos inusitados de câmera, transições quase imperceptíveis, música de primeira e totalmente alternativa gravada de artistas de rua em Nova Iorque… A lista de elementos que compõe a beleza do filme são tantas que fica difícil enumerar. Sem falar que ele pegou completos estranhos e transformou em atores. Aí entra o segundo trunfo do filme…

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A personagem principal é interpretada pela atriz pornô Sasha Grey, que sempre me chamou atenção desde que foi chamada a participar de talk shows e entrevistas por ser uma das atrizes mais jovens e revelação a estourar e fazer sucesso a indústria pornográfica. Ela começou assim que fez 18 anos e ficou famosa por cenas hardcore e levantar uma grana absurda. Agora Soderbergh a chamou para uma grande chance no cinema “mainstream”, apesar de ser num filme cult. Depois de ver o filme, faz sentido ele a ter chamado. Ela interpreta uma garota que tem que vender uma imagem de si mesma, de amiga, namorada, boa de cama, e qualquer coisa que aqueles que a pagam querem que ela seja, não muito diferente de sua profissão. Além disso ela tem uma belezão nada óbvia e é totalmente a vontade com nudez e interpretando as nuances da profissão. No demais, ela simplesmente convence. Os outros atores também são até legais e totalmente desconhecidos.

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As idas e vindas no tempo são algo para se chamar atenção. No começo do filme você tem noção que vai ser um filme narrado por diário, no estilo Bruna Surfistinha, mas não é. Você também pensa que vai ser um filme clichê narrado por entrevista, mas também não é. No final, você joga fora todos os seus “pré-conceitos” e aceita a obra pelo que ela é. Claro que isso exige olhos atentos, pois ao contrário dos filmes hollywoodianos, não te explica tudo direitinho o que está acontecendo, quando e como. Você tem que captar tudo através de olhares, diálogos, deixas, roupas, momentos, até pela música. Para tornar tudo mais confuso, assim como a vida da protagonista, existem as sobreposições de falas, de uma cena sobre outra coisa que está acontecendo. É um carnaval de idéias e sentidos, mas nada que exija um orçamento absurdos ou magos dos efeitos especiais. É tudo muito simples, muito sutil, sempre.

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Nem os créditos do filme estão no lugar certo. Tem alguns minutos de filme depois dos créditos. Nada óbvio no filme. Não tem pessoas transando, muito pouca nudez e nada é de graça nessa película. Tem que usar da sua sutileza, perspicácia e inteligência para entender o que está se passando em alguns momentos. Aos poucos vai montando um quebra cabeça, com final surpreendente. Não é reviravolta na trama porque não tem “trama”, é só surpreendente.

Se você gosta de filmes mais pensantes, reflexivos e sem toda a poluição audiovisual do cinema atual, para pessoas sem preconceitos ou com um nível mínimo de sensibilidade, é recomendável. Se você pode prestar atenção, se manter focado no filme e entender que não há moral da história na vida real e quer ver como é passear por outro ser humano nos seus curtos 78 minutos, mais recomendável ainda. Talvez não seja aconselhado para quem espere uma experiência “atordoante” em som THX e tela gigantesca, mas seria um bom programinha a dois ou com a galera mais “intelectual”. ;]

Crítica