18 de outubro de 2008 às 15:49

Caso do Sequestro em Santo André: culpados? alguém?

Foi o hype da semana, vai ser o assunto nos escritórios na segunda e a polêmica das familhas durante o fim de semana. E apesar de falarem “desfecho do caso”, está longe de terminar. Nesta segunda-feira, também conhecida como dia 13 de Outubro, Lindemberg Alves, de 22 anos invadiu e rendeu reféns um grupo de jovens após ter levado um pé na bunda da namorada Eloá Cristina Pimentel, de 15 anos. Armado e com bastante munição, o sequestro se arrastou durante 5 dias. Durante a maior parte do tempo ele manteve refém apenas Eloá e sua melhor amiga, Nayara Silva de 15 anos também. Nesta sexta-feira, em um “desfecho” trágico, o Batalhão de Choque da Polícia Militar de São Paulo invadiu o apartamento. Como resultado, Eloá recebeu dois tiros, um na virilha e outro na cabeça que adentrou a região pariental frontal e percorreu o cérebro até o cerebelo. Sua amiga Nayara recebeu um tiro no rosto. Eloá está em estado gravíssimo no hospital, com poucas chances de sobrevivênca. Sua amiga teve a bala removida e não corre risco de vida. E quem vai pagar a conta?

É óbvio que esse não era  o melhor desfecho possível, mas quem será o culpado? Durante os últimos dias tenho ouvido críticas e mais críticas a ação da polícia, dos mais diversos tipos. Não vou defendê-los, pois uma situação de sequestro se arrastar por mais de 72 horas, quaisquer que sejam as circunstâncias, apenas colaboram para a perturbação da ordem social como um geral. Países mais Prisão Lindemberg Alvesexperientes em situação de sequestro reconhecem esse problema e procuram resolver essas situações de qualquer forma possível dentro de 48 horas. Mas dentro dos males, talvez esse tenha sido o pior. O único erro visível e recriminável foi perder o controle sobre Nayara Silva que foi libertada e por descuido da polícia foi levada de volta ao local e entrou por livre e espontânea vontade – talvez movida pelo forte sentimento de amizade e lealdade a amiga – de volta no apartamento sob a mira do sequestrador.

De resto será nossa opinião contra a opinião do comando da Polícia Militar e nesse ponto não vai haver solução. A verdade é que fora a possível esquizofrenia do criminoso, não existem muitos culpados. Talvez um erro aqui, outro erro alí. Uma incapacidade de se assumir o fardo de tomar o “tiro de comprometimento” – momento em que o criminoso é alvejao por franco-atirador para preservar a integridade dos reféns – pois poderia comprometer a polícia.

“Nós poderíamos ter matado um garoto de 22 anos sem antecedentes criminais e emcrise amorosa. Se nós tivéssemos atingido o Lindemberg fatalmente, estaríamos sendo questionados por não negociar mais”

Coronel Felix disse que faria com seu filho o que fez com NayaraDisse o coronel Eduardo José Félix, comandante do Batalhão de Choque da Polícia Militar. Por conta desse excesso de cuidado, criou-se um problema ainda maior para a corporação. A polícia ou é dura demais em momentos desenecessários ou branda demais em momentos mais desnecessários ainda. Quanto a isso talvez nunca cheguemos a um consenso. Pelo menos não as pessoas mais racionais e com menos “sangue nos zóio”. Mais absurdo foi seu excesso de zelo pelos seus companheiros policiais ao defender a volta de Nayara ao apartamento, que foi visivelmente não planejada. Ao ser perguntado por um reporter se colocaria um de seus 3 filhos no lugar de Nayra, ele respondeu:

“Eu colocaria meu filho no lugar da Nayara.”

Péssimo julgamento como pai e como aministrador, coronel Félix. Sobre a invasão, uso de métodos para inconscientização do criminoso, ação dos negociadores, difícil se questionar algo, principalmente porque ninguém tem conhecimento técnico para tanto. Podemos falar apenas o óbvio, que demorou demais, acabou mal e que a demagogia policial está em alta este fim de semana como nessas declarações. Culpados? Legislação brasileira por ser branda demais e restritiva demais em tais ações? Impressa sensasionalista dando espaço para sequestrador ficar famoso? Péssima ação tática da polícia? Loucura do criminoso? Não tem como saber se é uma, duas ou todas essas opções. Eu voto na confluência de vários fatores negativos para um acontecimento deplorável. E quem paga o pato? Uma garota inocente. O neurocirurgião Marco Túlio Setti, que faz parte da equipe que operou Eloá, disse que nesse tipo de lesões cerebrais com arma de fogo, os danos são:

“desastrosos [...] com risco de estado vegetativo permanente.”

Nayara é atendida com bala na bocaNão defendo pena de morte. Não acredito na vingança. Não gosto de apressar as coisas. Mas prezo acima de tudo a eficiência e não precisa ser especialista ou ter várias sugestões táticas na ponta da língua para ter o bom senso de que esse caso não foi resolvido eficientemente. Tiro de comprometimento? Invasão antecipada? Melhor equipamento? Como posso saber? Somente posso afirmar que para tanto tempo de avaliação e negociação, todos sem excessão esperavam um resultado melhor. Todos torciam por um resultado melhor, mas nem sempre temos o que desejamos ou esperamos. Isso não significa que a polícia é ruim ou que as coisas não possam acabar bem. Vamos ser realistas, tocar nossas vidas e continuar acreditando que isso não vai acontecer conosco, já que daqui 1 ano ninguém vai lembrar quem é Lindemberg Alves… Assim como ninguém imagina o que aconteceu com os pais de Isabella Nardoni.

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