3 de março de 2009 às 10:00

[Bloguevista] Clara Gomes do Bichinhos de Jardim

Clara GomesFazia muito tempo que não conduzia uma entrevista com alguém tão especial para este que vos fala. Ela é artista, designer, petropolitana, moradora do Rio e dona do maior charme da blogsfera.Ela através de personagens no mínimo cativantes – para não dizer extraordinariamente inteligentes, simpáticos, bonitinhos e bem desenhados – conquistou uma legião de fãs. Em tempos de tirinhas rápidas com humor pobre e fácil, os Bichinhos de Jardim causaram grande espanto com humor sagaz e voltado para todos os públicos e idades. O sucesso é de reconhecimento até mesmo internacional e pelo visto para essas criaturinhas minúsculas o céu é o limite.

A ilustre convidada do Bloguevista dessa semana é Clara Gomes. Ela se abre sobre planos, negócios, mercado, coração e claro, os insetos mais charmosos dos quadrinhos. Confira e se encante também.

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0800: Quando e como você adentrou na blogsfera? Qual foi seu primeiro blog?

Ah, eu tive um blog de menininha, todo rosa, chamado “Temporada das Flores”. Acho que foi em 2004. Poesias e toda aquela bobajada sentimental.

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0800: O Bichinhos de Jardim é seu único projeto internético?

Sim. Eles tomam meu tempo todo. Mas a cabeça ‘tá sempre cheia de idéias…

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Bichinhos de Jardim - Making of...0800: Já chegou a “deletar” personagens do Bichinhos? Em algum pós-surto criativo falar pra si mesma “o que eu tava pensando quando criei essa m****”? Ou tudo que já fez foi muito bem pensado e nunca bateu arrependimento?

Apagar não, mas coloco alguns na “‘geladeira” sempre que fico sem idéias para ele. Hoje em dia, com audiência maior, eu penso mais antes de criar um personagem. Porque quando jogo algum para escanteio, o povo cobra e reclama do sumiço… Então é melhor eu ser cuidadosa, pelo bem da minha caixa de e-mails!

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0800: Quais os planos para o futuro império entomológico que é o Bichinhos de Jardim?

Hahahaaha.. Os planos são até simplórios. Não sou uma capitalista voraz, mas gostaria de vender alguns produtos com os personagens. Começar com camisetas, brindes legais… Sou meio burra pra empreendimentos, por isso tudo anda devagar. Mas vai sair, esse ano ainda…

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0800: E as tão aguardadas pelúcias dos Bichinhos, saem ou não saem? Eu pessoalmente adoraria um “Caramelo” no meu quarto. ;]

É, pelúcia é mais caro pra fazer, quando eu juntar uns trocadinhos da venda das camisas, vou investir nisso. E sou exigente demais com qualidade… Tem que ficar igual, senão não libero! Imagina, fazer os bonecos todos tortinhos, com cara de 1,99? Não rola…

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0800: Você acha que a qualidade do humor nas tirinhas restringe muito o público? Compensa fazer um humor mais inteligente e talvez ter até menos repercussão que as já manjadas tirinhas de pior qualidade gráfica e humor barato que circulam hoje em dia?

Não é uma questão de compensação, acho que é de integridade. Eu só consigo escrever algo que eu gostaria de ler. E meu gosto é esse – nem acho meu trabalho é tão inteligente assim, mas tento fazer algo sutil, agradável, sem referência a violência, que qualquer pessoa possa ler sem se sentir agredida. Mas sim, meu público é muito menor do que o de quem trabalha com um humor escrachado e sujo. E vai ser sempre assim, acho.

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Clara Gomes... olhos claros e solteiros0800: O que a Clara Gomes faz no tempo livre quando não está cavucando o Jardim?

Quando não estou brigando com meu alter ego Joanesco ou não estou no meu emprego (é, tenho um emprego) eu gosto de fazer música, escrever, compor, cantar. Acho que é o que me equilibra, é a música.

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0800: E o status de relacionamento? O povo quer saber! ;]

Ué, é revista Quem?

Aqui é mistura de Quem, Caras, Isto É, Super Interessante, Carta Capital e Braincast TV huahauhu

Hahahaha… Entendi.

Eu estou esperando meu príncipe – mas, na falta deste, aceito um Bobo da corte!

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0800: Tem muito leitor assanhado querendo conquistar a desenhista?

Não muitos, mas espero que depois dessa entrevista o número aumente.

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0800: E algum deles algum dia teria uma chance ou tem uma distância já pré-estabelecida entre artista e o público? ;]

Ser artista não é muito diferente do que ser qualquer outra coisa.Mas como é uma profissão que te expõe muito, as pessoas às vezes vem como se já te conhecessem. Ou idealizam muito. Já vem com uma expectativa grande, sabe?

Tipo aquela idéia pré-concebida pela interpretação da obra.

É, acham que eu sou uma espécie de fadinha, porque faço ‘bichinhos’. Mas a realidade é muito mais ampla que isso.

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Clarinha Gomes na Campus Party0800: Com qual dos seus personagens você se identifica mais?

Depende da época. Eu “sou” todos, de uma certa forma. Mas oscilo muito entre a Joaninha e o Caramelo. Mau-humorada, controladora, organizada x sonhadora, poeta, meio sem os pés no chão. Imagina a briga interna!

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0800: Existe espaço para o romantismo do “Caramelo” no mundo atual?

Sempre vai existir o espaço do romantismo, naturalmente. Mesmo que não seja um espaço oficial – já que a sociedade exige valores muito masculinos para alcançarmos o sucesso – precisamos do carinho, do tempo lento do afeto. Acho que o Caramelo simboliza isso, a paciência nessa reconstrução das relações afetivas, no meio do caos urbano onde vivemos.

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0800: Qual o comentário mais absurdo que já recebeu na trajetória bloguística?

Sem dúvida foi o mané me chamando de ‘biscate’, que é uma palavra que já quase não se usa mais… E tinha outros termos também, que prefiro não reproduzir aqui. As pessoas sentem muito ódio na internet, não entendo bem o porquê.

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0800: Qual você acha que vai ser o futuro da blogsfera, ou seja, como você vê os blogs daqui uns 5 a 10 anos?

Eu tenho uma previsão meio pessimista da blogosfera. Já faz algum tempo que os blogueiros passaram a ter mais importância do que o que eles dizem, bem naquela onda “celebridade por celebridade”. E como vivemos uma era carente de lideranças, acho que isso vai se intensificar. Em breve os jornais vão estar cheios de notícias sobre os net idols, quem pegou quem, foto da casa de praia…

Com a quantidade absurda de blogs sendo criados, essas “celebridades” funcionam como curadoras da internet, indicando o que é e o que não é relevante ou interessante – com poder de detonar ou erguer novas redes e mídias. Os blogs, por si só, acredito que vão se resumir ainda mais, serão absorvidos de vez pela publicidade e pelas ferramentas de microblogging, como o twitter. Menos texto, mais ação. Ninguém tem tempo de ler tanto! E vai rolar um apartheid gigante entre o que chamávamos de blog (diarinho pra contar sobre o filho e o cachorro, que não vai deixar de existir) e o blog comercial e dominante, que vai assumir um papel cada vez maior na formação de opinião e se misturar à imprensa tradicional até virar… outra coisa que eu não sei o nome ainda.

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Clarinha Gomes0800: Alguma dica para os blogueiros que estão começando agora, nesse exato momento e talvez caíssem de pára-quedas nessa entrevista?

Quem chegar agora na brincadeira tem que entender que não adianta fazer mais do mesmo. Republicar fotos engraçadinhas e vídeos de pobre com dificuldades na fala já tem demais. É legal observar muito, ler de tudo na internet e chegar com uma proposta interessante – pensando principalmente na ferramenta principal do blog, que é a interação e a troca. E também na transparência com o público. De resto, é apostar em algo que você faça bem (escreve, desenha, inventa histórias, piadas, receitas, o que for…), projetar o blog com um design legal e ter paciência para esperar o negócio render frutos. Nunca sair pedindo link desesperadamente, mas inventando formas criativas de chamar a atenção das pessoas.

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0800: Quanto a monetização. O que você pensa a respeito do mimimi sobre “blogueiros de aluguel” e similares?

Pra mim, esse assunto já deu. “Eu só quero é ser feliz, andar tranquilamente no blog que escrevi.”

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0800: Por último, mas não menos importante: Para você, blog é…?

… minha varanda (ou jardim). Onde recebo os amigos que queiram ouvir e ver minhas histórias, trocar idéias e jogar conversa fora!

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Não sei vocês, mas eu adorei tanto fazer a entrevista quanto as ótimas respostas. E não se acanhem em sugerir entrevistados, a gente corre atrás com o maior prazer.

Bloguevista