23 de agosto de 2010 às 10:48

A Origem [Crítica]

Um bom filme também é como um vírus… cresce na tela.

Não faz muito tempo, fãs de Batman e Chris Nolan se sentiram traídos, até mesmo “orfãos”, quando o diretor anunciou que colocaria Batman 3 na geladeira para fazer um filme totalmente misterioso chamado Inception. O elenco desde o início chamou muita atenção. Eis então, que muito tempo depois, Nolan cria a peça máxima de alusão entre o cinema e os sonhos, uma metáfora visual talvez pouco notada pelos espectadores da película, mas já capturada pelas noções perturbadoras do mestre Stanley Kubrick, entre outros. Em uma narrativa de ação moderada, nunca vazia de significado, ele coloca seu nome no panteão dos grandes diretores e talvez um dos únicos grandes diretores Hollywoodianos desse ano com uma obra prima, boa concorrente ao Oscar até agora.

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A Origem conta a história Cobb, líder de um grupo de “espiões dos sonhos”, especialistas na arte da extração. Nada mais é do que tirar idéias e informações do sonho de uma pessoa sem que esta sequer perceba, através de uma tecnologia inovadora. Mas, o inteligente e perturbado Cobb recebe uma proposta irrecusável para fazer algo quase inpossível. Ele deverá implantar uma idéia através dos sonhos, em troca receberá uma quantia obscena de dinheiro e algo que o redimiria de todos seus erros: a possibilidade de voltar para casa. O que ele não contava, é que além da dificuldade de fazer algo que muitos julgam impossível, ele tem que lidar com um inimigo que nem ele mesmo pode prever ou deter, enquanto corre contra o tempo.

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A trama obviamente é muito mais complexa do que isso, desenvolvendo tanto seu personagem como alguns dos coadjuvantes, protagonistas e antagonistas, em um emaranhado de emoções, personalidades e apropriações de termos psicológicos. Christopher Nolan é conhecido por dois méritos, ser extremamente meticuloso e sigiloso. Dessa vez não só conseguiu a maestria diretorial, como também teve liberdade de criar toda a história ao longo de anos em que o roteiro ficou “engavetado”. Surpreendentemente, a história nos foi revelada apenas nos últimos meses de divulgação e o hype já estava formado. Genial, tanto de sua parte como do estúdio, já que a complexidade da história nunca seria passada por uma sinopse. É como tentar resumir 2001: Uma Odisséia no Espaço em 2 linhas. Nem é preciso falar também do sucesso da parceria de Nolan com o mestre Hans Zimmer. Trilha sonora de primeira, que vale a pena aguardar para comprar em edição especial com faixas extras, como em Cavaleiro das Trevas.

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Grande parte desse sucesso vem também da ótima seleção de elenco. Leonardo DiCaprio não só tem a experiência necessária, como abraça e expressa toda a carga dramática do personagem. Ellen Page recae novamente no seu estereótipo de adolescente com visual meio nerd e não tem tanta oportunidade de ousar, mas rouba a cena mesmo assim com sua simpatia. O estilo “namoradinha” convence sempre. Acaba dominando a cena com bons diálogos e contra ponto do personagem Cobb. A grande revelação é Ken Watanabe em posição de maior destaque no filme, revelando várias facetas e dando vida além do imaginado a seu personagem, Saito. Talvez a melhor atuação seja a de Marion Cotillard, que além de ter que interpretar basicamente dois papéis – a esposa de Cobb e sua imagem no inconsciente do mesmo – consegue passar toda a complexidade de um diálogo entre duas facetas de uma mesma pessoa. Fantástica.

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Ação reflexiva é algo que diretores buscam, mas raramente conseguem atingir no cinema de ação, pois acabam se perdendo no tamanho da produção e roteiro, se afogando em efeitos. Nolan atingiu esse feito como poucos. Mesmo assim, desliza bem de leve ao se apropriar hollywoodianamente de conceitos ultrapassados da psicanálise para tentar dar forma ao mundo dos sonhos, que pela lógica não deveria ser tão rígido e lógico como é pregado no filme, com todas as suas regras e exatidões.

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Mesmo assim, a ótima ambientação nos faz esquecer esses deslizes técnicos e nos faz mergulhar em uma narrativa de personagens muito bem amarrados. Alguns personagens até não são desenvolvidos, mas deixam sua marca, como o intrigante Arthur de Joseph Gordon-Levitt. Uma mistura mais do que eclética de um ar “Kubrickiano” a um universo meio Matrix. Que seria o cinema e a experiência de um filme além da experiência de um sonho? Como duas horas poderiam ser distorcida em dias, semanas, anos, até séculos? Como coisas particularmente sem sentido ou totalmente fantasiosas poderiam preencher totalmente nossas mentes como um filme? Seria o próprio cinema uma “inserção” de idéias a nível inconsciente em nós mesmos? Perguntas é o que a película mais nos traz.

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Com certeza não será a obra absoluta sobre sonhos de todos os tempos, mas sem sombra de dúvida é diversão da melhor qualidade com supremacia não apenas nos aspectos técnicos, mas em uma história fabricada e envelhecida como os melhores vinhos do mundo. Difícil falar algo sem dar spoilers, mas é suficiente que todo o ótimo boca a boca, grande sucesso de público e crítica e a competência de todos os envolvidos falem por si, para pelo menos despertar a curiosidade de ver esse filme. Assim funcionam as idéias, como o personagem principal gosta de colocar, “como um vírus”. Nem preciso dizer que está recomendadíssimo, provavelmente alguém já fez isso por mim em suas cabeças. ;]

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