23 de agosto de 2009 às 11:00

A Onda [Crítica]

die welle - A Onda

Nem tudo é tão preto no branco

Tanto o filme quanto a história do meu envolvimento com ele são interessantes. O primeiro contato com a história do filme foi através da exibição de uma versão de 1981 de um média-metragem para a TV com o mesmo nome, mostrado no meu primeiro ano na faculdade de psicologia. Novamente mostrado no segundo ano em um aula de psicologia social causou uma discussão mais aprofundada. Eis que então essa semana, sem aviso, noto uma propaganda do filme na TV, descubro que existia uma refilmagem alemã de 2008 que estava para estrear nessa última Sexta-feira. Não poderia por nada perder esse filme, já sabendo da sua fantástica história…

A Onda conta a história do professor de ensino médio Rainer Wenger (Jürgen Vogel), que é “forçado” a dar uma aula especial sobre autocracia. Notando o desinteresse na aula e a relutância dos alunos em acreditar na matéria, propõe um breve experimento envolvendo a formação de um movimento. Aos poucos ele demonstra como funciona a vida sobre uma ditadura, mas o experimento começa a criar uma unidade social que foge totalmente a seu controle.

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Parece uma premissa simplista, mas envolve tanta reflexão e questionamento que pode fazer mudar um pouco seus conceitos. O diretor foi o jovem Dennis Gansel e o seu elenco de jovens atores pareceu extremamente talentoso e promissor. Palmas para Frederick Lau que faz o papel de Tim, o mais “perturbadinho” entre todos, digamos assim. Tecnicamente o filme mostra boa parte da superioridade cinematográfica e se une a grandes obras alemãs diretoriais reflexivas sobre a juventude do pais como Corra, Lola, Corra, Adeus, Lenin! e Edukators. Tanto na escolha fantástica das músicas, que se você pesquisar as letras pelo menos das músicas em inglês, vai notar que ilustram muito bem todo o filme. O cuidado foi grande, com um assunto delicado.

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Parte técnica impecável a parte, a história foi baseada em fatos reais, em um experimento que ocorreu na verdade nos Estados Unidos, na primeira semana de Abril de 1967. O professor Ron Jones da Cubberley High School em Palo Alto, na Califórnia, lecionava história e decidiu criar esse experimento para mostrar aos seus alunos como alguns alemães foram capazes de alegar ignorância sobre o massacre de judeus durante o Holocausto. Ele criou um movimento chamdo A Terceira Onda. O verdadeiro experimento não foi muito bem documentado, apenas através do jornal da escola e depois em uma tese do próprio Ron Jones, mas foi o suficiente para gerar o filme de 1981, posteriormente um livro e até mesmo um musical.

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Agora com essa refilmagem, o público de assunto chave, os alemães, são agora o público alvo do filme. Na atual obra, o diretor/roteirista implementa inclusive como os alemães vivem entre a culpa e o ódio pela sua própria história e ignoram a possibilidade de uma autocracia voltar a surgir lá ou em qualquer outro lugar desenvolvido no mundo. Algo bem pertinente a qualquer pessoa remotamente interessada nos âmbitos sociológicos do experimento. O filme só perde ponto para o fato de que o final “alternativo” nessa nova versão é um pouco mais sensacionalista e dramático. Claro que não deve estragar a experiência para quem nunca ouviu falar da história, mas é um pouco frustrante pois peca em passar a mensagem tão bem quanto o filme original de 81. Talvez um bloqueio do próprio Gansel em lidar com os comparativos alemães, facismo e nazismo.

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Talvez possa se entender que vivemos em um mundo realmente mais sencacionalista, dramático e violento e o novo final faça um pouco de sentido, mas não foi o caso pelo meu ponto de vista. Fora isso é um filme extremamente interessante e que te deixa pensando bem depois que filme acaba. Recomendamos fortemente, que se tiver sorte de ter uma sala perto de você que tenha estreado esse filme, vá logo assistir, pois compensa sim o ingresso. É bom para sabermos que as coisas que envolvem poder nunca são preto no branco. Extremamente recomendado.

PS: Pesquisando um pouco, descobri que o verdadeiro professor Ron Jones faz uma participação no filme como um cliente em um barzinho que é vandalizado na história. É esse tiozinho que aparece nesse breve segundo do filme, perplexo com os jovens vândalos. Deve estar com aproximadamente uns 68 anos pelo que descobri.

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Crítica